terça-feira, 24 de abril de 2012


A verbalização é um momento essencial na análise

A verbalização tem desde o início do processo de análise um efeito terapêutico. Permitir ao analisante outra via que não o sintoma, ou seja, a via da fala é abrir um caminho menos penoso. Se o sintoma pode vir em lugar de qualquer coisa que não foi dita, é porque fala por si mesmo. Se a palavra o faz desaparecer é porque está relacionado com ela. É este sujeito que fala que o psicanalista busca escutar, mesmo que a pessoa que vem para uma análise ignore todo o discurso que mantém com seu corpo. Se sofrimento fala a palavra pode curar.

domingo, 15 de janeiro de 2012


O que pode habitar em nós

Até onde o ser humano na busca insana pelo controle da vida, ou na busca pela perfeição, ou ainda, no desejo de poder é capaz de chegar? Outra pergunta: o que podemos ler nestas posições, nestes desejos tão atuais? Me arrisco a dizer que podemos ler,  grosso modo, a imensa dificuldade que temos de lidar com a idéia de finitude, ou seja, com a idéia da morte, de como podemos nos atrapalhar com as perdas e do quanto não suportamos a falta. É com estas questões, nada novas, que saio do cinema, depois de assistir A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar. É notável a forma como este diretor apresenta a película, mostrando como podemos ser cruéis e insanos numa roupagem que espanta, mas aos poucos vamos digerindo sem nos darmos conta. O protagonista, um médico cirurgião, num enredo que mesmo em se tratando de ficção traz um quê da realidade que vivenciamos. Uma realidade onde prepondera a lógica do excesso, da onipotência, e da falta de ética. Se olharmos para o avesso desse sintoma perceberemos que a dificuldade é de lidar com a falta, que significa lidar com as perdas que inevitavelmente virão pelo caminho de todos, sem exceções, sejam médicos, dentistas, psicanalistas ou lavradores.
No filme a recusa do personagem principal em aceitar a finitude e a busca da perfeição o coloca na rota e numa conduta sem escrúpulos, perfilando-se as mentes mais insanas e perversas que já existiram e fizeram a história da humanidade. O fim só poderia ser um: trágico.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011


A questão do sujeito

Uma das perguntas fundamentais do sujeito em análise ou em terapia é: tenho de direito a quê? Desta forma o neurótico pode recusar-se a abandonar o que impede de ter prazer, pois inconscientemente, ele não se sente no direito de desfrutar, o que é uma ficção simbólica, operativa, pois é exatamente isso que  estrutura a neurose. O conceito de sujeito é o que há de revolucionário em Lacan. Ele dizia que seu ensino começou em 1953 com o artigo Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise, reeditou no seu livro Escritos e confirmou através de uma introdução sob o título Do sujeito enfim em questão. Com isso marcou seu ensino não com a lingüística, nem com o estruturalismo, mas com a consideração do sujeito. O sentido do sujeito na clínica é de um sujeito que se estabelece quanto ao direito e não quanto ao fato, por isso observar o sujeito no sentido de buscá-lo na objetividade, ou quantificá-lo é não querer encontrá-lo. Dizer que o sujeito na clínica psicanalítica não  é um sujeito de fato, mas de direito equivale a dizer que não se pode separar a clínica da ética da psicanálise. Até porque a primeira incidência  clínica da ética da psicanálise é o próprio sujeito.

terça-feira, 8 de novembro de 2011


O que é o inconsciente?

Foi somente em 1878 que o termo inconsciente aparece no dicionário da Academia sob a forma de substantivo. Até a descoberta freudiana o inconsciente, sob a compreensão da psicologia da segunda metade do sec XIX – denotava tudo aquilo que não é consciente para o sujeito, o inconsciente era tudo aquilo que escapava a sua consciência espontânea e refletida.
Ao propor a hipótese de um lugar especificamente referido a uma espécie de consciência inconsciente, Freud não inventa um termo novo, mas se empenha em legitimar com base nas suas investigações, a observação daquilo que tropeça, que cambaleia, que falha em todo mundo, quebrando a continuidade lógica do pensamento e dos comportamentos da vida cotidiana: sonhos, lapsos, atos, falhos, esquecimentos e de um modo amplo, os sintomas compulsivos dos neuróticos.
O tratamento psicanalítico, ou a psicanálise iniciou uma nova revolução que trouxe a “peste” ao renegar as bases do cogito cartesiano na conhecida tese: “penso logo existo” para a tese: “o eu não é mais senhor em sua própria morada”.
Com Jacques Lacan, psicanalista que renova as teses freudianas, percebe-se que as palavras não são coisas banais, mas que introduzem uma chamada para cada sujeito inventar sua maneira de ler. O psicanalista tem como tarefa fazer perceber o sujeito em seu próprio discurso. 

terça-feira, 20 de setembro de 2011


Nossos valores dizem da nossa forma de viver

A personalidade se constrói a partir do eu e do mundo, ou ainda, da cultura na qual estamos inseridos. Neste processo a forma como entendemos e significamos nossos valores e conceitos aparecem nas nossas escolhas, experiências e são repetidos nas inúmeras relações que vamos construindo no decorrer da vida.
Hoje percebemos na cultura, e isso significa nas relações que participamos um apego as aparências e certo declínio de elementos que envolvem a criação. Talvez estejamos tomados pela ânsia e velocidade das tecnologias do saber. Nas nossas relações e aprendizagens esse risco é imanente, até porque não há como estar fora do fluxo da cultura, que apresenta matizes e apelo ao consumo como características marcantes. Neste caso, a reflexão é a maneira de enfrentarmos o risco.
As relações humanas também sofrem uma instabilidade intensa. Com o rompimento das certezas surgem inúmeros modos de vida, e com isso a pluralidade, a diferença e a alteridade. Estando as certezas em crise é necessário que possamos pensar em outras formas de produzir, de viver, e é neste momento que trazemos este conceito: experiência estética. Sabemos que não é possível buscar um sentido que garanta, são necessários sentidos, estes a serem criados, ou seja, dado por quem navega, quem vive. Essa é a especificidade do conceito de significante na psicanálise. Nós não temos como organizar o mundo do entorno, ou seja, o mundo em que vivemos se não metaforizarmos, se não criarmos.

quinta-feira, 9 de junho de 2011


Bloomsday

No próximo dia 16 de junho estaremos comemorando o Bloomsday, o dia de Leopold Bloom, ou melhor, o dia em que o personagem do romance  Ulisses de James Joyce vive e revive sua história. Oficiosamente 16 de junho de 1904 é o dia em que Joyce conheceu Nora, sendo portanto o Bloomsday a comemoração do encontro do escritor e da sua musa. Em 1954 o Bloomsday foi celebrado pela primeira vez por cinco escritores, entre os quais, O`Brien, que partiram à cavalo de Marcelo Tower – onde se passa o primeiro capítulo de Ulisses – com o propósito de ir longe, mas as tentações, os pubs eram tantos no caminho que a coisa desandou. Ultimamente o Bloomsday tem sido celebrado por várias pessoas no mundo inteiro. Talvez pudéssemos pensar ou dizer que o Bloomsday é uma celebração do amor – o dia em que Joyce e Nora se encontraram – esta poderia ser uma interpretação interessante, pois Ulisses foi um presente que Joyce deu a Nora. E que presente!
É muito provável que no dia 16 em  Porto Alegre em algum pub ou outro lugar se encontrem escritores e amantes da boa literatura para comemorar o Bloomsday.

terça-feira, 24 de maio de 2011

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011


Saber viver


O psicanalista é considerado como aquele que deve minorar o sofrimento e a angústia de quem o procura e, por outro lado, sua função crítica o leva a provocar o desconforto.
Pode-se mesmo dizer que ele existe para criar o desconforto. Se ele deve permitir a seus analisantes o acesso a seus desejos inconscientes, isto implica uma descoberta que não é anódina, ou seja, não é nada banal. Ao contrário  provoca fatalmente a angústia e a revolta.
Desta posição surge a dimensão ética da função do psicanalista que não pode se confundir com a promoção dos “bens” engodativos, ou seja, aqueles bens que visam ludibriar e, que são na maioria das vezes, apregoados pelo discurso do poder.
O bem a que visa o psicanalista para seu analisante é o bem da verdade de seu desejo que o possibilita saber viver sua castração simbólica como um dom, como uma aptidão. Este dom o confronta com o bem da escassez e não da locupletação - aquele bem que abarrota, que o torna cheio.
Vivermos a castração simbólica, isto é, nos darmos conta que não somos ilimitados, tampouco onipotentes, e viver esta castração como um dom é o que pode nos liberar dos quadros do pensar convencional, abrindo-nos caminhos para as invenções, libertando-nos de nossos grilhões para quem sabe grafarmos uma nova escrita do sintoma.