terça-feira, 28 de maio de 2013


O sexual é patológico?

Lanço esta questão para que possamos, quem sabe, pensar como se comporta esse significante que borda qualquer discurso, ou seja, o sexual. Nem tudo é apenas sexual, mas o sexual está em tudo.
Ora, numa relação sexual, cada um está fundamentalmente, na sua fantasia e tenta realizá-la com o outro, que por sua vez, também está na sua fantasia. O sexo seria o lugar onde existem as pessoas, é claro, e a fantasia operando. Neste sentido o que se realiza no campo sexual não é patológico. Pode ser patológico o sujeito sofrer por não conseguir viver a sexualidade que gostaria e por aí. Ser diferente, ter idéias diferentes sobre a sexualidade, ter uma conduta sexual diversa não tem nada de patológico.
Sabemos que Freud definiu a sexualidade como essencialmente polimorfa, aberrante. Estava aí, quebrado o encanto de uma pretensa inocência infantil. Sabemos também que as vias de tentativa de prazer concebidas na nossa contemporaneidade passam também pelo aspecto do virtual. O sexo virtual não tem nada de diferente do sexo real, no que diz respeito as fantasias de cada um. Então, tanto melhor se pudermos usar as mais variadas formas de comunicação interpessoal e incorporá-las à nossa vida psíquica.
Mesmo que a medicina do século XIX tenha se esforçado para tornar patológicas algumas condutas sexuais, devemos considerar que as variantes do desejo sexual não são patológicas.
O discurso neurótico versa na tentativa de agradar o outro, isto é, se eu agradar o outro, vou estar livre, vou ser aprovado, ter amor do outro etc.. Essa é a saída desastrada e comum de que o neurótico lança mão para evitar a castração. Uma outra saída é de Antígona[1]. Ela não deixa influenciar-se pela pólis. Segue a lei do desejo. Então, fazer o bem e agradar ao outro, isso está sempre em jogo para nós. O que o outro vai pensar de mim, etc... Pois bem, agradar ao outro não é problema, o problema é quando isso se torna valor prevalecente, isto é, um valor acima de tudo. Sabemos que o desejo desagrada, pois o desejo é excêntrico, ele não me pertence, mas me diz respeito. Seria aquilo de que fugimos, como o diabo foge da cruz. O desejo vem de um outro lugar, tirando-nos o conforto. O desejo tem um elemento sexual. É interessante pensarmos o seguinte: por que a questão sexual causa tanto problema?

[1] Da tragédia grega de Sófocles. Antígona defende as leis “não escritas” do direito moral contra a falsa justiça da razão do Estado e das sociedades humanas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013


Por que somos violentos?


A violência é histórica e endêmica, ou seja, é permanente na espécie humana, traz e sempre trará prejuízos constantes enquanto existirmos. Impossível esperarmos uma sociedade que seja pacífica. Dizemos isso para entendermos um pouco algumas tragédias, como por exemplo, o que aconteceu em Newtown (Connecticut) nos Estados Unidos, dezembro último e outros eventos semelhantes.

Interessante pensarmos que escolhemos por quem vamos fazer o luto. Os americanos poderiam dizer que a sociedade brasileira é inviável, pois matamos no trânsito tanto quanto ou mais que os americanos mataram na guerra do Vietnã. E nós diríamos, que é melhor estar aqui do que viver num país onde as pessoas entram nas escolas e matam pessoas. O importante nestes exemplos é que não é possível prevermos atitudes de violência. É claro que existem casos clínicos violentos e temos que tratá-los. Mas sabemos que em se tratando do ser humano, sempre estaremos em território nebuloso. Até por que possivelmente já passou pela cabeça de uma pessoa o desejo de matar alguém, mas daí em fazê-lo é outra coisa. Uma passagem ao ato é o nome técnico dessa atitude que para além do limite leva alguém ao crime. E mais, não podemos antecipar nenhum ato. Não temos como nos proteger, há uma imprevisibilidade, isso é o que mais nos angustia.

A tentativa de controle ou a tentativa de anteciparmos é um equívoco. Isso não significa que não há nada a fazer. Talvez este é o risco deste pensamento, ou seja, o de que não temos como antecipar, ou não temos controle sobre nós, sobre o mundo e a natureza, então nada temos a fazer.

Há medidas a serem realizadas, temos que observar que existe um novo laço social, que exige que cada um invente e se responsabilize por isso, pelas suas escolhas. Este laço não responde mais aos grandes temas. Como por exemplo: o cidadão pegar nas armas para servir a nação. Os jovens, ou a nova geração está nos ensinando um novo jeito de nos relacionarmos. Eles dizem não a esta ordem. Eles suportam uma articulação sem sentido, e suportam isso sem problema. Há uma pulverização de sentidos e os jovens de hoje lidam melhor com isso. Ao mesmo tempo que se vinculam se desvinculam com imensa facilidade. Na maioria das vezes lemos isso aterrorizados, achando que estão perdidos, no entanto somos nós que estamos assustados, ou engessados, com certa dificuldade de renovar as ideias, conceitos e porque não, crenças. Há uma nova forma de transcendência que não correspondem mais aos grandes símbolos, mas que também trabalham símbolos. Os jovens não estão preocupados se você entendeu, mas se você sentiu o que eles também sentiram, tá ligado?

domingo, 23 de setembro de 2012


                                                   A ética da psicanálise

Para o psicanalista Jacques Lacan o seminário 7 - a ética da psicanálise foi realizado num tempo difícil entre ele e a IPA, a Associação Internacional de Psicanálise. Num período que culminou na sua exclusão do quadro de psicanalistas didatas da instituição em 1963. Processo que Lacan denominou “a grande excomunhão”.  Passados alguns anos, no seu seminário 20 - mais, ainda (1972-73), Lacan irá dizer que de todos os seminários que viessem a ser publicados por outras pessoas, o seminário 7 era o único que gostaria de reescrever. Este seminário não foi publicado na época por uma questão de polidez por parte de Lacan em relação aqueles que o criticavam. Também não pretendia convencê-los de coisa alguma. O mesmo tinha um caráter subversivo em relação a moral “psicanalítica” dominante. Estas observações reforçam a importância do seminário pelas questões ali colocadas e desenvolvidas.
Somente cinco anos após a morte de Lacan, em 1986, o seminário 7 – a ética da psicanálise foi publicado e até hoje mantém seu vigor.
Neste seminário logo de início Lacan diz que pretende falar de ética e não de moral, dando a indicação do que iria desenvolver. Pretendia distanciar-se do caráter prescritivo – em termos de valores e ideais de conduta, que caracteriza a reflexão filosófica sobre a moral na época. A moral entendida como o conjunto de regras e normas que  funcionam como um sistema de obrigações, um sistema de coação social. Deste modo a reflexão que Lacan propõe neste seminário não se limita ao reconhecimento do supereu, cujos paradoxos Freud já havia assinalado. Mas vincula-se ao imperativo freudiano que diz o seguinte: onde está o isso, que o eu possa advir – no que Lacan aponta para a iminência do desejo. Enfatizamos com isso a função fecunda do desejo no direcionamento da ação humana e que o mesmo está no centro da discussão ética para a psicanálise.

sexta-feira, 13 de julho de 2012


De pressão

A depressão, como é chamada, acontece depois que o sujeito recuou diante de um ato ao qual não podia deixar de envolver-se. Enquanto que a melancolia, para fazer um contra-ponto, é caracterizada psiquicamente por uma alteração do humor desafinado, contrariado, irritado e por uma supressão do interesse pelo mundo, assim como pela perda da capacidade de amar.
Muitas vezes encontramos episódios depressivos nas neuroses, no entanto isto não torna a depressão uma entidade clínica específica. A depressão de certa forma traduz uma rejeição dos valores fálicos e do cumprimento das tarefas propostas pela existência com as limitações que as definem. Além disso, remete lembrar a castração, ou seja, a tudo que o sujeito é levado a renunciar, por pertencer ao mundo dos humanos, um mundo regulado pela lei da linguagem e da cultura. 

terça-feira, 24 de abril de 2012


A verbalização é um momento essencial na análise

A verbalização tem desde o início do processo de análise um efeito terapêutico. Permitir ao analisante outra via que não o sintoma, ou seja, a via da fala é abrir um caminho menos penoso. Se o sintoma pode vir em lugar de qualquer coisa que não foi dita, é porque fala por si mesmo. Se a palavra o faz desaparecer é porque está relacionado com ela. É este sujeito que fala que o psicanalista busca escutar, mesmo que a pessoa que vem para uma análise ignore todo o discurso que mantém com seu corpo. Se sofrimento fala a palavra pode curar.

domingo, 15 de janeiro de 2012


O que pode habitar em nós

Até onde o ser humano na busca insana pelo controle da vida, ou na busca pela perfeição, ou ainda, no desejo de poder é capaz de chegar? Outra pergunta: o que podemos ler nestas posições, nestes desejos tão atuais? Me arrisco a dizer que podemos ler,  grosso modo, a imensa dificuldade que temos de lidar com a idéia de finitude, ou seja, com a idéia da morte, de como podemos nos atrapalhar com as perdas e do quanto não suportamos a falta. É com estas questões, nada novas, que saio do cinema, depois de assistir A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar. É notável a forma como este diretor apresenta a película, mostrando como podemos ser cruéis e insanos numa roupagem que espanta, mas aos poucos vamos digerindo sem nos darmos conta. O protagonista, um médico cirurgião, num enredo que mesmo em se tratando de ficção traz um quê da realidade que vivenciamos. Uma realidade onde prepondera a lógica do excesso, da onipotência, e da falta de ética. Se olharmos para o avesso desse sintoma perceberemos que a dificuldade é de lidar com a falta, que significa lidar com as perdas que inevitavelmente virão pelo caminho de todos, sem exceções, sejam médicos, dentistas, psicanalistas ou lavradores.
No filme a recusa do personagem principal em aceitar a finitude e a busca da perfeição o coloca na rota e numa conduta sem escrúpulos, perfilando-se as mentes mais insanas e perversas que já existiram e fizeram a história da humanidade. O fim só poderia ser um: trágico.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011


A questão do sujeito

Uma das perguntas fundamentais do sujeito em análise ou em terapia é: tenho de direito a quê? Desta forma o neurótico pode recusar-se a abandonar o que impede de ter prazer, pois inconscientemente, ele não se sente no direito de desfrutar, o que é uma ficção simbólica, operativa, pois é exatamente isso que  estrutura a neurose. O conceito de sujeito é o que há de revolucionário em Lacan. Ele dizia que seu ensino começou em 1953 com o artigo Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise, reeditou no seu livro Escritos e confirmou através de uma introdução sob o título Do sujeito enfim em questão. Com isso marcou seu ensino não com a lingüística, nem com o estruturalismo, mas com a consideração do sujeito. O sentido do sujeito na clínica é de um sujeito que se estabelece quanto ao direito e não quanto ao fato, por isso observar o sujeito no sentido de buscá-lo na objetividade, ou quantificá-lo é não querer encontrá-lo. Dizer que o sujeito na clínica psicanalítica não  é um sujeito de fato, mas de direito equivale a dizer que não se pode separar a clínica da ética da psicanálise. Até porque a primeira incidência  clínica da ética da psicanálise é o próprio sujeito.

terça-feira, 8 de novembro de 2011


O que é o inconsciente?

Foi somente em 1878 que o termo inconsciente aparece no dicionário da Academia sob a forma de substantivo. Até a descoberta freudiana o inconsciente, sob a compreensão da psicologia da segunda metade do sec XIX – denotava tudo aquilo que não é consciente para o sujeito, o inconsciente era tudo aquilo que escapava a sua consciência espontânea e refletida.
Ao propor a hipótese de um lugar especificamente referido a uma espécie de consciência inconsciente, Freud não inventa um termo novo, mas se empenha em legitimar com base nas suas investigações, a observação daquilo que tropeça, que cambaleia, que falha em todo mundo, quebrando a continuidade lógica do pensamento e dos comportamentos da vida cotidiana: sonhos, lapsos, atos, falhos, esquecimentos e de um modo amplo, os sintomas compulsivos dos neuróticos.
O tratamento psicanalítico, ou a psicanálise iniciou uma nova revolução que trouxe a “peste” ao renegar as bases do cogito cartesiano na conhecida tese: “penso logo existo” para a tese: “o eu não é mais senhor em sua própria morada”.
Com Jacques Lacan, psicanalista que renova as teses freudianas, percebe-se que as palavras não são coisas banais, mas que introduzem uma chamada para cada sujeito inventar sua maneira de ler. O psicanalista tem como tarefa fazer perceber o sujeito em seu próprio discurso.