domingo, 13 de maio de 2018


O Trânsito é um problema social?
                                             

Certamente o trânsito tem que ser pensando a partir do social. Estamos em campanha do Maio Amarelo. Seu slogan: nós somos o trânsito. Então, se a cor já traz a atenção necessária pela vida, acrescentamos uma separação da palavra, amarelo, amar elos. Vejam que a cor escolhida, não é por acaso. E  para que esta iniciativa seja efetiva é imperativo a sociedade abraçar a causa, já que o trânsito somos nós.
Hoje as estatísticas dizem que estamos matando e morrendo demasiado no trânsito. Quase uma epidemia. Hora de nos perguntarmos, por que isso acontece?
Ora, sabemos que no trânsito temos vários atores em questão, pedestres, motoristas, ciclistas, agentes fiscalizadores e instituições. Também sabemos, e é realidade que os problemas de mobilidade urbana se tornaram complexos. Se entendermos a questão como Rozestraten, de que o trânsito é um jogo social, poderemos avançar e partir para as negociações, com isso criar primazias e critérios para lidar com os problemas.
Precisamos acordar para o progresso, utilizar os órgãos públicos para suporte na fiscalização, a engenharia necessária e a educação para fazer a coisa andar. Estas são frentes importantes para mudar o olhar e nosso comportamento no trânsito.
Outra inspiração, guardadas a devidas proporções, é o exemplo da França, que reduziu significativamente o número de acidentes de trânsito, para tal implantou um plano de ação que deu certo.
No Brasil temos por onde, no entanto, falta vontade política para que sejamos efetivos. Há uma nítida dissociação e pouco diálogo entre as instâncias que deveriam cuidar de tais questões. Mas, se temos como, é urgente colocar em ação as boas idéias, os projetos e envolver a sociedade civil a participar. Nosso desafio reside em como a sociedade poderá fazer parte, se a sociedade parece estar à parte? É necessário implementar e insistir numa cultura de educação no trânsito em todas as esferas. Para tal, sugerimos adotarmos junto com a campanha maio amarelo, que traz a importância e o respeito que devemos dar as pessoas e a vida, mais este slogan, trânsito: um bem social.

Artigo publicado na ZH online em 14/05/2018.

terça-feira, 20 de março de 2018



Viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza de espírito.
                                                                                                                        Mark Twain

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018


Escolas podem surpreender!!

Neste carnaval de 2018 tivemos uma grande demonstração de educação por parte das escolas do grupo A do carnaval do Rio. As escolas carnavalescas mostraram que ensinar ou que as aprendizagens não estão tão somente e necessariamente no espaço escolar tradicional. Ambientes que naturalmente absorvemos e legitimamos que são as escolas, universidades, faculdades e equivalentes.
A leitura que apreendemos desta magnífica demonstração é que educação, ou as mais variadas formas de aprendizagens também passam pela proposta que as escolas apresentaram na avenida. O que notadamente foi traço, senão ideia central, na maioria delas foi a crítica contundente ao momento político e econômico que todos os brasileiros estamos passando, assim como reverenciar o que temos de bom na nossa cultura. 
Tanto nas alas que foram apresentadas com suas alegorias, com enredos lúcidos, pontuais e ferozes na crítica social, como a escola Paraíso da Tuiuti, a Beija Flor, trouxeram uma crítica importante para aplaudir de pé. Tudo isso associado à emoção que cada um colocou na passarela foram encenados de maneira poderosa e contagiante. É muito provável que muitos de nós nos sentimos representados, de alma lavada. Este é o país que queremos!  Irreverente, criativo, ousado e ético. Faz a festa, cai na folia, mas também mostra uma face politizada, libertando-se do cativeiro social.
Falta muito para gente mudar esse país. A festa, a farra da maioria dos políticos tem que acabar. As eleições estão chegando! Hora de mostrar nossa força, nosso poder nesta ação que é o voto!
Hora de colocarmos os blocos nas ruas que exijam mudanças e a boca no trombone, no megafone, no microfone, no fone! Até porque temos o que dizer e mostrar! Bora mudar Brasil!!



quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Por uma cultura da saúde emocional

Janeiro branco é uma campanha por uma cultura da saúde mental, que se dedica a convidar as pessoas a pensarem sobre suas vidas, a qualidade de seus relacionamentos, o quanto elas conhecem de si mesma, suas emoções, seus pensamentos e sobre seu comportamento. Muito importante para a questão lembrada neste mês, é que possamos manter viva essa cultura pelos meses do ano e porque não, pela vida toda.
A idéia é pararmos para lembrar, refletir e falar no cuidado que devemos ter com a nossa pessoa, com nossa saúde emocional. É hora de desmistificar a questão, despatologizar quem busca ou acessa qualquer tipo de tratamento psíquico. Se sabemos e experimentamos que os afetos afetam, devemos sem pudores dar a devida atenção a esfera emocional.
Partindo do pressuposto que o ser humano é um conjunto que compõem corpo, mente e outros ingredientes da cultura, a maneira talvez mais interessante, que temos para bem conduzirmo-nos é se conhecendo. Retomando a máxima socrática “Conhece-te a ti mesmo”. Temos a responsabilidade, cada um a seu modo, de investir para que essa máxima possa operar em nós. Como diz o ditado popular: “há vários caminhos que levam a Roma”, ou ainda, há vários caminhos que levam ao rumo. Sabemos que dar um rumo criativo e saudável a vida requer de nós uma boa dose de autoconhecimento. Lembro-me de quando dei início a minha análise pessoal. Investimento que produziu efeitos, arrancando-me da vacilação deletéria, jogando-me no mar das palavras, fazendo com que pudesse acertar-me comigo mesma, reaprender a desejar e abrir-me a experiência do convívio com o outro. Tarefa trabalhosa, mas necessária para que pudesse imprimir certa liberdade e ousadia na vida. O cuidado de si gera o cuidado na relação com o outro e consequentemente com a natureza.
Saúde emocional de um povo também pressupõem políticas públicas e psicoeducativas. Começar o ano, ou seja, janeiro com essa proposta é pensar que sofrimentos, violências e segregações podem ser significativamente minimizadas e a vida maximizada.


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Democracia, o que é isso?

Motivada pelas discussões sobre o tema e sentindo-me chamada a pensá-lo em tempos de grandes conflitos sociais e políticos. Ambiente propício para a reflexão, até porque não podemos dizer que na democracia não há conflitos. Conforme a Enciclopédia Larousse democracia é: “um regime político que se funda na soberania popular, na divisão de poderes e no controle da autoridade” ou ainda “um sistema político no qual o povo exerce sua soberania por intermédio de órgãos representativos”. Como podemos perceber o significado de democracia nos faz apreender que se trata de um dos sistemas políticos, onde o povo exerce sua soberania política, econômica e social. Pois bem, esse é o sistema político brasileiro. Mas se este é nosso sistema político, então porque percebemos nosso povo cada vez mais submetido? E, mais, como é possível uma democracia de fato, se temos um povo do qual a maioria carece de reflexão sobre si e o mundo onde vive?
Parece inevitável pensar no povo que elege vereadores, prefeitos deputados estaduais, deputados federais, governadores, senadores e presidentes. Do livro Origens do discurso democrático, do querido e mestre Prof. Donaldo Schüler, extraímos que a democracia na modernidade traz consigo reflexos de seu nascimento na Grécia antiga. Mais precisamente no modelo proposto por Górgias, onde a figura do orador esta em evidência. Ora, os oradores da modernidade são os políticos, vereadores, deputados, senadores, presidentes e as mídias. O instrumento para a realização do orador é ainda, como antigamente, a retórica. A retórica é um jogo que depende das habilidades dos oradores. Nesta esteira, a democracia pode ser pensada como um jogo entre oradores e audiência. Sabemos na carne, que é o jogo democrático que define os rumos de uma nação. Onde os oradores são atores que interferem no julgamento e nas escolhas da audiência. Hoje, vimos claramente como os ouvintes na sua grande maioria não participam da argumentação - aquela que faz as leis -, são passivos e não estão blindados de uma proteção contra esta retórica. Então, como fazer a audiência participar significativamente do jogo democrático? Penso que a resposta é: educação!


Artigo publicado na ZH de 09/01/2018.

quarta-feira, 1 de março de 2017

“Toda nação tem o governo que merece”

Esta frase é conhecida e dita por muitos de nós. Usá-la-emos para nosso contexto político atual. Então, que leitura fazer da atualidade e dos governos que temos ou que devemos temer?
Pergunta boa, resposta complexa. Outro dia Leandro Karnal, professor e historiador fez uma leitura muito interessante da realidade atual. Trouxe algumas questões, onde algumas ficaram reverberando em mim. Karnal lembrou o que Lacerda havia dito sobre o Brasil, que éramos uma nação honesta governada por ladrões. Até poderia ter honestos na nação, mas a frase merece uma reflexão maior. Pois deixa de lado aspectos importantes. Concordo com Karnal quando este contesta um tanto a frase de Lacerda quando diz: não existe governo corrupto e nação ética. Pois, a nação empresta inevitavelmente seu tom ao seu governo, ou seja, a nação não deixa de ser o espelho do governo. Ou mais, a nação escolhe seu governo. Sei que a nação pode ser conduzida pelas mídias, discursos subliminares e tal. Mas todo povo, nação tem o governo que merece.
Importante entender que há corrupção por todo lado, há um comportamento social corrupto. O curioso é que vemos a corrupção como um mal fora de nós. Como sendo algo que acometesse ao outro ou aos políticos. A corrupção não está somente num ou noutro partido político. Ela está no ser humano, no sujeito.
Então não temos solução?
Não gosto desta palavra solução, por soar radical demais, buscar a solução pode ser uma tarefa impossível. Fadada ao fracasso. Talvez o fundamental nessa tarefa é combater o mal, ou combater alguns males da nossa cultura, como por exemplo: a misoginia, a corrupção, o racismo, a homofobia, a cultura do estupro, a cultura do medo e muitas outras culturas opressoras. Trata-se de um processo longo e necessário. Podemos estar a passos lentos, mas estamos andando. Hoje temos milionários, muito ricos e brancos na cadeia. Isso é bom, há algum tempo atrás isso era impensável. Se começarmos a respeitar o outro, seja quem for, é indício que temos jeito sim.
Uma questão importante de ser pensada é que na medida que temos a abertura e voz para vários movimentos sociais relevantes, temos também a construção de etapas para que estes movimentos se instaurem. Como as etapas da criminalização, da resistência e da celebração.  A celebração é fundamental, para restaurar a identidade dos movimentos, abrir espaços para ouvir as vozes, cores e nomes aos grupos. Mas a resistência existe e é real. Isso se faz na voz dos conservadores e dos preconceituosos. A criminalização estamos vencendo. Importante que estes discursos apareçam e que possam ser interrogados. Precisamos falar disso. Ou seja, combater fanatismos e absolutos com argumentos. A cultura do medo é o que temos de pior, pois atrás do medo temos, na maioria das vezes, grandes preconceitos.

Resta-nos escutar e respeitar as várias vozes, cores e sabores... o diálogo é o que temos de melhor, mesmo que este diálogo seja com um fascista.

Artigo publicado na ZH de 23/06/2017

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O mau uso da inveja


A inferência da economia social na economia libidinal é uma realidade e temos que lidar com isso. Até porque o pano de fundo de todas as engendrações humanas é o econômico.  Há atualmente um comércio de imagens, um convite ao abuso das imagens ou do campo imaginário.
Imaginário, Simbólico e Real são três registros caros a psicanálise lacaniana. Bases de todo o desenvolvimento, compreensão e prática psicanalítica, em especial a lacaniana. Lacan se diz freudiano, então nos dizemos freudolacanianos.
Muito do que faz problema no nosso convívio diário, está no campo das relações humanas, ou na economia das relações e o objeto em causa.  E este objeto toma várias, ou inúmeras versões. Por exemplo, ser excluído por não possuir o objeto de desejo de uma maioria. Desejo este pré-dado, encomendado pelo discurso capitalista que dita o que deve ser consumido. Entenda-se que discurso é aquilo que engendra um modo de ser e estar no mundo. Não ter a coisa, ou o objeto que representa um lugar de reconhecimento na cultura, traz prejuízo e possibilita o mau uso da inveja.

A passagem da representação da coisa para a representação da palavra é o trabalho na clínica psicanalítica, ou mais precisamente de uma análise.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Servos

Somos servos do discurso
Ou de um curso que nos
Leva ao nascimento
Depois...na vida o trabalho será 
tirar o cimento desse
Nas  cimento 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

  

As obras de arte ajudam a tornar tangíveis as emoções.



A natureza seleciona pela sobrevivência, o ser humano pela aparência.



Muitas vezes o amor termina empobrecendo a palavra, e não por sua causa se leva os méritos do gozo.
Não temos que saber de quem nos enamoramos, senão contra quem. Na verdade o que amo é que me amem. 

J. Lacan

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Des coberta

A descoberta freudiana do recalque e de seus efeitos na produção de sintomas impõe uma direção de tratamento que não deixa o psicanalista neutro.  O coloca, de certa forma, numa posição que diz da ética proposta pela prática. Numa análise o psicanalista quer algo, suspender o recalque. Por aí, suas intervenções, sua técnica, a interpretação e as construções que irá propor implica que se posicione acerca de uma questão que os filósofos desde sempre colocaram: é preciso ou não renunciar aos seus desejos?

O segredo dos políticos moralistas sempre foi incitar o sujeito a retirar suas fichas do jogo do desejo. Essa acusação não pode ser feita a Freud, pois suas produções consistem em dar ênfase aos danos provocados à renúncia das pulsões. Com isso podemos dizer que o mal estar na civilização é redutível ao mal estar do desejo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O que esperar de uma análise?

Nossa cultura esta marcada pela queda dos ideais e por um ceticismo com consequências nefastas, como por exemplo, o avanço e aumento das práticas mágicas e promessas religiosas. Presenciamos com isso, o desejo da maioria de nós por salvações absolutas, na espera possivelmente de um ser providencial capaz de dar conta daquilo que nos falta. Enfim, trata-se da velha e eterna busca da felicidade, no entanto, e necessário uma advertência, o ônus pode ser alto.
Qual é lugar, neste contexto atual, para uma análise, ou seja, uma psicanálise?
Pois bem, distante de promessas vãs, sublinhando o valor da singularidade e dignificando a condição de sujeitos advertidos de seus submetimentos, a prática da psicanálise busca a transformação dos gozos. Cabe aqui sublinhar algo que pode parecer incompreensível para o senso comum: um sujeito pode gozar sofrendo. E não só isso, como também defende essa condição resistindo a modificá-la até que se torne insuportável. Podemos dizer que, este gozo paradoxal, tira-nos a energia, inibe a criatividade e restringe a liberdade. Resultando em uma vida de poucas perspectivas e iniciativas e reiterados fracassos.

É possível que isso aconteça para muitos, este é o preço a pagar para sustentar este tipo de existência. Mas para aqueles que tem a coragem e se atrevem a realizar uma “tarefa analisante”, poderá haver a possibilidade de se abrirem para outros gozos, menos sofredores quem sabe, entre os quais possamos reconhecer o gozo da vida e do saber produzido nesta “tarefa analisante”.

terça-feira, 11 de agosto de 2015



Em cena ensina



Porto em cena alegre

Em Porto, alegre cena

Alegre encena Porto

Alegre cena em Porto

Cena alegre em Porto

Cena em Porto Alegre


 Porto Alegre em Cena



“Não existem pequenos papéis, existem apenas pequenos atores.”
C. Stanislavski, Minha vida na arte


“A arte não produz o visível, faz-se visível.”
P. Klee, Teoria da arte moderna


“Na arte não há passado, nem futuro. A arte que não está no presente não existirá nunca.”
Picasso, conversa com M. de Zayes


terça-feira, 6 de janeiro de 2015


A arte de viver

Theodor Fontane  dizia que a vida tal como ela se apresenta é árdua, proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas as vezes impossíveis. E para suportá-la não poderíamos dispensar medidas paliativas, ou seja, não poderíamos passar sem construções auxiliares. Freud no seu texto O Mal estar na cultura cita algumas medidas ou derivativos poderosos que nos fazem extrair luz da desgraça. Como por exemplo, a atividade científica ou intelectual, as satisfações substitutivas, tal como as oferecidas pela arte, são ilusões em contraste com a realidade, e poderíamos nos perguntar onde a religião encontra lugar nessa série? Esta última questão caberia uma reflexão mais aprofundada, não é nosso interesse aqui.  
Ora sabemos que a questão do propósito da vida humana foi levantada várias vezes e nunca se teve uma resposta satisfatória e talvez não haja. Não se trata de enumerar métodos para conseguir a felicidade e manter afastado o sofrimento. Há de certa forma uma demanda social de uma técnica da arte de viver, e é isso que nos interessa aqui. Talvez aí possamos pensar numa modalidade de vida que faz do amor o centro de tudo, que busque toda a satisfação de amar e ser amado. Temos que concordar que uma atitude psíquica deste tipo chega a nós de modo bastante natural. Uma das formas através da qual o amor se manifesta - o amor sexual – nos proporciona experiências de prazer, fornecendo com isso um modelo de busca de felicidade. Então temos a questão: há algo mais natural do que persistirmos na busca da felicidade do modo como a encontramos? A questão frágil desta técnica de viver é que nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes quando perdemos o nosso objeto amado. O curioso, porém é que isso não elimina com a técnica de viver baseada no valor do amor como meio de obter felicidade.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Saber viver


O psicanalista é considerado como aquele que deve minorar o sofrimento e a angústia de quem o procura e, por outro lado, sua função crítica o leva a provocar o desconforto. Pode-se mesmo dizer que ele existe para criar o desconforto. Se ele deve permitir a seus analisantes o acesso a seus desejos inconscientes, isto implica uma descoberta que não é nada banal. Ao contrário provoca fatalmente a angústia e a revolta. Desta posição surge a dimensão ética da função do psicanalista que não pode se confundir com a promoção dos “bens” que enganam, ou seja, aqueles bens que visam ludibriar e, que são na maioria das vezes, apregoados pelo discurso do poder. O bem a que visa o psicanalista para seu analisante é o bem da verdade de seu desejo que o possibilita saber viver sua castração simbólica como um dom, como uma aptidão. Este dom o confronta com o bem da escassez e não com aquele bem que abarrota, que o torna cheio. Vivermos a castração simbólica, nos darmos conta que não somos ilimitados, tampouco que somos onipotentes, isto é, viver esta castração como um dom é o que poderá nos liberar dos quadros do pensar convencional, abrindo-nos caminhos para as invenções, libertando-nos de nossos grilhões para quem sabe grafarmos uma nova escrita do sintoma.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Ser para a morte
No texto As variantes do tratamento padrão dos Escritos de Jacques Lacan o sujeito “in statu nascendi” é uma realidade mortal, ou ser para a morte, da qual o eu é justamente o desconhecimento. Desde então o instinto de morte pode ser definido como a lembrança silenciosa da realidade. Essa interpretação é confirmada pelo que Lacan acrescenta sobre a transferência. Para que a relação de transferência possa escapar aos efeitos, como por exemplo o da análise conduzida, será necessário que o analista tenha se despojado da imagem narcísica de seu eu e de todas as formas do desejo onde ela se constitui, para reduzi-la a uma única figura que, sob suas máscaras, a sustenta: a do mestre absoluto, a morte. É justamente aí que análise do eu encontra seu termo ideal. A morte não se trata ou ainda, essa morte não tem nada a ver com aquilo que é dito no universal “todo ser humano é mortal”, se trata neste caso do ser para a morte que resta a ser reformulado, ou a se reformular para cada um num trabalho de análise.

domingo, 6 de outubro de 2013

A ética na clínica psicanalítica



A ética na psicanálise se constitui da práxis e não tão somente da técnica. E a clínica é por excelência o campo da prática. Costuma-se dizer que a clínica psicanalítica só é possível se há transferência. Uma das teses de Lacan no Seminário 11 – os quatro conceitos da psicanálise, é de que a transferência é a realização atualizada do inconsciente, ou seja, ali ele se faz atual. Numa psicanálise o convite a falar é uma das premissas. E o que a acontece com o sujeito está relacionado a fala. Dissemos que o inconsciente se estrutura como uma linguagem. Ora, na fala do sujeito veicula de modo velado o desejo, que aparece como enigma. Na transferência o sujeito traz como demanda que o outro, no caso o psicanalista, dê a resposta - sobre sua questão, seu sofrimento. O sujeito se queixa, se agarra a queixa e repete a demanda de que alguém venha responder. A questão é o que o psicanalista faz com este pedido, com esta demanda. Este é o trabalho de análise, ou seja, “propor” que o sujeito tope com a falta e com isso se resignifique, se reinvente. Está aí uma prática que indica uma ética.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Ética  e estética

Os modos de conhecimentos, as formas de vida, nossas experiências estéticas estão pautadas por imperativos que são celebrados em inúmeras narrativas. Hoje, assistimos o apego as aparências e um certo crepúsculo de elementos que envolvem a criação. Possivelmente porque estamos tomados pela ânsia e velocidade das tecnologias. No processo das aprendizagens o risco é imanente, até porque a educação produz e é produzida pela cultura, que por sua vez se constitui destas narrativas. A reflexão é a maneira de enfrentarmos o risco de não sucumbirmos ao ponto de ficarmos reféns dos padrões discursivos, que como já dissemos opera na cultura. A cultura nada mais é do que fluxo.
É fato que a ética ocidental se pautou na busca do racional, base da ética na educação que perdurou séculos[1]. Hoje, temos claro a falência das narrativas com pressupostos essencialmente racionais. Sabemos que estas narrativas sofreram uma instabilidade intensa. Com o rompimento da unidade da razão surgiram inúmeros modos de vida, e com isso a pluralidade, a diferença e a alteridade. A educação foi a que mais sofreu com a crise da racionalidade. Estando esse racional em crise é necessário que possamos pensar em outras formas de produzir conhecimento, produzir modos de viver, e neste momento que propomos pensar a experiência estética como propiciadora destas novas criações.
Podemos inferir e dizer que nosso país, o Brasil, a partir dos eventos últimos, ou seja, os movimentos, as redes sociais, a presença do povo nas ruas, com o emblemático chamado, “o gigante acordou”. Tudo isso pode servir como um exemplo do que pode compor numa experiência estética. Isto é, não tem como passarmos por uma experiência estética e sairmos iguais. 
Na experiência experiência estética temos que não é possível buscar um sentido a priori, são necessários sentidos, estes a serem criados, ou seja, dado por quem navega. Na verdade essa é a especificidade do conceito de significante na psicanálise. Nós não temos como organizar o mundo do entorno se não metaforizarmos. “(...) o perder-se no interior do caminho da compreensão, faz parte de todo processo criativo. Qualquer forma de pensamento e de expressividade estética está impossibilitado de existir, se, durante sua caminhada, não perder um naco de suas intenções primordiais, justamente para que possa retornar a algo que estava alhures, mas pensava encontrado.” (Bairon, 2005, p.79.)

[1] Este aspecto foi trabalhado na minha dissertação de mestrado: A ética na educação: uma perspectiva psicanalítica, no Cap. 2 – A ética na educação, p.19-36.

terça-feira, 28 de maio de 2013


O sexual é patológico?

Lanço esta questão para que possamos, quem sabe, pensar como se comporta esse significante que borda qualquer discurso, ou seja, o sexual. Nem tudo é apenas sexual, mas o sexual está em tudo.
Ora, numa relação sexual, cada um está fundamentalmente, na sua fantasia e tenta realizá-la com o outro, que por sua vez, também está na sua fantasia. O sexo seria o lugar onde existem as pessoas, é claro, e a fantasia operando. Neste sentido o que se realiza no campo sexual não é patológico. Pode ser patológico o sujeito sofrer por não conseguir viver a sexualidade que gostaria e por aí. Ser diferente, ter idéias diferentes sobre a sexualidade, ter uma conduta sexual diversa não tem nada de patológico.
Sabemos que Freud definiu a sexualidade como essencialmente polimorfa, aberrante. Estava aí, quebrado o encanto de uma pretensa inocência infantil. Sabemos também que as vias de tentativa de prazer concebidas na nossa contemporaneidade passam também pelo aspecto do virtual. O sexo virtual não tem nada de diferente do sexo real, no que diz respeito as fantasias de cada um. Então, tanto melhor se pudermos usar as mais variadas formas de comunicação interpessoal e incorporá-las à nossa vida psíquica.
Mesmo que a medicina do século XIX tenha se esforçado para tornar patológicas algumas condutas sexuais, devemos considerar que as variantes do desejo sexual não são patológicas.
O discurso neurótico versa na tentativa de agradar o outro, isto é, se eu agradar o outro, vou estar livre, vou ser aprovado, ter amor do outro etc.. Essa é a saída desastrada e comum de que o neurótico lança mão para evitar a castração. Uma outra saída é de Antígona[1]. Ela não deixa influenciar-se pela pólis. Segue a lei do desejo. Então, fazer o bem e agradar ao outro, isso está sempre em jogo para nós. O que o outro vai pensar de mim, etc... Pois bem, agradar ao outro não é problema, o problema é quando isso se torna valor prevalecente, isto é, um valor acima de tudo. Sabemos que o desejo desagrada, pois o desejo é excêntrico, ele não me pertence, mas me diz respeito. Seria aquilo de que fugimos, como o diabo foge da cruz. O desejo vem de um outro lugar, tirando-nos o conforto. O desejo tem um elemento sexual. É interessante pensarmos o seguinte: por que a questão sexual causa tanto problema?

[1] Da tragédia grega de Sófocles. Antígona defende as leis “não escritas” do direito moral contra a falsa justiça da razão do Estado e das sociedades humanas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013


Por que somos violentos?


A violência é histórica e endêmica, ou seja, é permanente na espécie humana, traz e sempre trará prejuízos constantes enquanto existirmos. Impossível esperarmos uma sociedade que seja pacífica. Dizemos isso para entendermos um pouco algumas tragédias, como por exemplo, o que aconteceu em Newtown (Connecticut) nos Estados Unidos, dezembro último e outros eventos semelhantes.

Interessante pensarmos que escolhemos por quem vamos fazer o luto. Os americanos poderiam dizer que a sociedade brasileira é inviável, pois matamos no trânsito tanto quanto ou mais que os americanos mataram na guerra do Vietnã. E nós diríamos, que é melhor estar aqui do que viver num país onde as pessoas entram nas escolas e matam pessoas. O importante nestes exemplos é que não é possível prevermos atitudes de violência. É claro que existem casos clínicos violentos e temos que tratá-los. Mas sabemos que em se tratando do ser humano, sempre estaremos em território nebuloso. Até por que possivelmente já passou pela cabeça de uma pessoa o desejo de matar alguém, mas daí em fazê-lo é outra coisa. Uma passagem ao ato é o nome técnico dessa atitude que para além do limite leva alguém ao crime. E mais, não podemos antecipar nenhum ato. Não temos como nos proteger, há uma imprevisibilidade, isso é o que mais nos angustia.

A tentativa de controle ou a tentativa de anteciparmos é um equívoco. Isso não significa que não há nada a fazer. Talvez este é o risco deste pensamento, ou seja, o de que não temos como antecipar, ou não temos controle sobre nós, sobre o mundo e a natureza, então nada temos a fazer.

Há medidas a serem realizadas, temos que observar que existe um novo laço social, que exige que cada um invente e se responsabilize por isso, pelas suas escolhas. Este laço não responde mais aos grandes temas. Como por exemplo: o cidadão pegar nas armas para servir a nação. Os jovens, ou a nova geração está nos ensinando um novo jeito de nos relacionarmos. Eles dizem não a esta ordem. Eles suportam uma articulação sem sentido, e suportam isso sem problema. Há uma pulverização de sentidos e os jovens de hoje lidam melhor com isso. Ao mesmo tempo que se vinculam se desvinculam com imensa facilidade. Na maioria das vezes lemos isso aterrorizados, achando que estão perdidos, no entanto somos nós que estamos assustados, ou engessados, com certa dificuldade de renovar as ideias, conceitos e porque não, crenças. Há uma nova forma de transcendência que não correspondem mais aos grandes símbolos, mas que também trabalham símbolos. Os jovens não estão preocupados se você entendeu, mas se você sentiu o que eles também sentiram, tá ligado?